De Vitor Birner
Fluminense 0×0 Olimpia
Certa vez, Carlos Alberto Parreira comentou que o gol era um detalhe. Muita gente tirou sarro do treinador, mas era possível compreender a argumentação dele.
Quem observou com atenção o empate de Fluminense e Olimpia entendeu bem o discurso do primeiro técnico campeão brasileiro pelo Tricolor.
O Fluminense ganhou o duelo no meio de campo, teve inteligência para encarar os paraguaios, foi bem na parte tática, seus jogadores lutaram tanto quanto os do rival, mas falharam nos fundamentos importantíssimos para quem pretende vencer.
O último passe, aquele que coloca alguém na cara do gol, foi muito ruim, tal qual as finalizações nas duas chances claras criadas pelo time de Abel Braga, as únicas da partida.
As chances de classificação no jogo de volta contra o perigoso Olimpia são iguais para os dois times.
É impossível ter qualquer espécie de convicção a respeito de qual deles chegará na semifinal.
A única certeza é que a torcida do “El Decano’ lotará o estádio, fará bastante barulho, criará o ambiente intenso e tornará mais forte a emoção de quem obtiver sucesso na missão difícil tanto para os anfitriões quanto aos visitantes no próximo confronto.
Escalações
Fluminense – Diego Cavalieri; Bruno (Rafael Sobis), Digão, Leandro Euzébio e Carlinhos; Edinho (Samuel) e Jean; Wellington Nem, Wágner (Felipe) e Rhayner: Fred
Técnico: Abel Braga
Olimpia – Silva; Manzur, Miranda e Candia; Gimenez (Pérez), Aranda, Ortíz, Báez (Ariosa) e Salinas; Salgueiro (Castorino) e Bareiro
Técnico: Ever Almeida
O desafio
O Fluminense tinha balançado as redes apenas quatro vezes nas quatro partidas como mandante na Libertadores.
O Olimpia chegou ao confronto como time com maior quantidade de finalizações. Havia feito gols em todas as partidas fora de Assunção.
Abel Braga, durante a semana, falou sobre a importância de não sofrer gols em casa.
O discurso do treinador tinha outra argumentação implícita e nem todo mundo conseguiu compreender.
Ele exigiu competência defensiva com seus comandados atacando o adversário.
Não se referiu apenas à marcação.
O desafio era, e continuará sendo, atacar sem deixar espaços. Não se tratava apenas de jogar bem sem a bola.
Perigoso
O Olimpia não é uma equipe ingênua.
Os paraguaios não merecem críticas fortes ou elogios entusiasmados.
Têm um time correto. Fazem o arroz com feijão de maneira competente.
Sabem se defender e não podem ter espaço quando tentam o gol, pois possuem opções de criação por ambos os lados.
Atuam com 3 zagueiros, mas, quando as circunstâncias do confronto exigem, um dos alas recua e o zagueiro do lado oposto abre para atuar na lateral e a equipe ter a linha de quatro atrás.
Ou, se necessário, Gimenez e Salinas, os alas, fazem isso e o goleiro Silva recebe a proteção de cinco atletas na defesa e quatro no meio, todos bem próximos uns dos outros.
A aproximação é a leitura de jogo boas transformam o Olimpia num time perigoso.
De posse da bola, a equipe também atua de forma compacta. Salgueiro e Bareiro atuam no ataque e invertem o posicionamento constantemente. O primeiro é mais técnico, pode recuar para criar pelo meio ou se colocar na posição de centroavante.
Seu companheiro fica na esquerda do ataque ou ocupa o meio da área caso Salgueiro saia dela.
Baez é a opção de velocidade na direita. Os alas apoiam, porém não têm boa qualidade no cruzamento.
Faltou apenas a parte final da missão
O Fluminense, na parte individual, é superior, apesar de não ter jogado bem na fase de classificação do torneio.
Precisava ser tão guerreiro e taticamente competente quanto o adversário.
Não há razões para o torcedor tricolor reclamar da atitude de seus representantes dentro de campo.
Os paraguaios começaram o jogo tentando marcar a saída de bola. Queriam deixar a redonda longe do gol defendido por Martin Silva.
O Flu escapou da armadilha e conseguiu fazer a transição da defesa ao ataque.
O meio de campo montado por Abelão tomou conta do setor.
E começou a batalha em busca de algum espaço no bem montado sistema defensivo do Olimpia.
O campeão tocou a bola de um lado para o outro, sem pressa, enquanto esperava o erro do ‘El Decano’.
Wellington Nem, na direita, Rhayner, na esquerda, e Wágner, centralizado, formaram a linha de três do 4-2-3-1.
Wágner jogou perto de Fred. Bem contou com a ajuda do lateral Bruno, que apoiou bastante. O mesmo aconteceu do outro lado, aonde Carlinhos apareceu diversas vezes na frente, algumas delas até à frente do ex-boleiro do Náutico, na área, para surpreender o rival.
Jean se transformou em meia. Apareceu diversas vezes pelo meio no intuito de articular o lance de gol e arriscar os chutes de fora da área.
O time que mais finalizou em gol na Libertadores não obrigou Diego Cavalieri a fazer uma defesa no primeiro tempo.
Faltaram um pouco mais de movimentação do sistema ofensivo, a troca de posições do quarteto mais avançado, e o gol para a missão ficar completa.
Se Carlinhos, cara a cara com Martin Silva, não desperdiçasse a melhor oportunidade logo no quarto minuto, talvez o comportamento do Olimpia e o andamento do jogo fosse diferente.
Mais aberto
Ever Almeida voltou com Castorino, atacante de velocidade, no lugar de Salgueiro. Também adiantou um pouco o Baez.
Deixou três atletas rápidos em campo para aproveitar o espaço deixado pelos laterais e os contragolpes.
Apesar de dois atacantes ajudarem o meio de campo, especialmente Bareiro que virou um meia-ofensivo, sobrou mais espaço no setor.
E os jogadores do Flu pecaram bastante em um fundamento importantíssimo.
A tal da assistência
Último passe ou assistência.
Assim o ‘dialeto do futebolês’ chama o passe que coloca alguém na cara do gol, antes do artilheiro balançar a rede.
O Flu teve na etapa complementar mais espaço para criar e consequentemente oportunidades de sair cara a cara com Silva, do que antes do intervalo.
Abelão fez o possível para o tornar o time mais ofensivo.
Substituiu o lateral Bruno por Rafael Sóbis, aos 28. O Flu passou a ter sempre três jogadores no ataque, atletas de velocidade pelos lados, um atacante na ala, o meia, além do apoio do volante Jean e de Carlinhos.
Depois, Wágner, machucado, saiu e Felipe entrou. A última tentativa, aos 39, foi a troca do volante Edinho pelo atacante Samuel.
Pouco antes, Aranda havia sido expulso e Olimpia decidiu ficar apenas com um atacante.
Leandro Euzébio e Digão, ou um dos laterais quando alguém da zaga foi ao ataque tentar o cabeceio, eram o bastante para a marcação do contra-ataque paraguaio.
Nada resolveu.
O último passe do Fluminense foi muito ruim.
Sem ele, só é possível fazer gol no cruzamento, chute de fora da área ou se alguém sair driblando todo mundo, situação incomum no futebol moderno.
Apenas uma vez o Flu acertou o tal do último passe.
Fred tocou para Rhayner, que driblou o goleiro e finalizou mal.
Justo
A arbitragem de Roberto Silvera foi boa, não interferiu no resultado, e por isso achei o empate justo.
Chances iguais
O Fluminense sabe se defender e tem contra-ataque rápido.
Conta com atletas mais técnicos que os do Olimpia.
Terá uma dura missão diante da fanática torcida do tricampeão da Libertadores, porém as chances de classificação para a semifinal é igual para os times deste confronto.



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