A história da Eurocopa – Parte VII
Por Felipe Santos – convidado especial
Suécia-1992: A penetra que virou dona da festa
1991. Fim das eliminatórias para a Euro. No grupo 4 da classificação, a Iugoslávia consegue a vaga. Chance de uma boa campanha para os iugoslavos, que chegaram às quartas-de-final na Copa de 1990, certo? Errado.
Com o país sendo dizimado pelos graves conflitos entre sérvios e croatas - com bósnios e albaneses também participando -, a Iugoslávia foi desclassificada da Euro-92 pela UEFA.
E os daneses receberam a vaga de presente, quando muitos jogadores já até planejavam o que fazer nas férias.
Richard Moller-Nielsen, treinador danês, já se preparava para remodelar a cozinha de casa quando recebeu a tarefa de talhar os roligans (não confundir com “hooligans: os dinamarqueses são conhecidos como roligans ”- “alegres”, em dinamarquês - pelo aspecto festivo e pacífico de sua torcida) para o torneio.
E precisou fazê-lo sem poder contar com a estrela principal: Michael Laudrup brigara com ele e não estaria na Suécia. Menos mal que ele contaria com Brian Laudrup, mano de “Miki” e já figura de proa no ataque, auxiliado por Henrik Larsen e John “Faxe” Jensen no meio e tendo no gol a figura já respeitada e reconhecida de Peter Schmeichel.
No grupo A, a Dinamarca teria de enfrentar os donos da casa, no exato momento em que recolhiam os cacos da péssima participação na Copa de 90 e já deixavam o time pronto para conseguir a terceira colocação dali a dois anos, nos EUA.
Já estavam lá Brolin, Dahlin, Kennet Andersson, Klas Ingesson, Ljung, Jonas Thern e, claro, Ravelli.
Pode-se dizer que os escandinavos do grupo estavam melhores do que as duas forças mais conhecidas do grupo A. A França, de volta, ainda possuía resquícios do título de oito anos antes: Amoros e Fernandez ainda estavam no time, treinado justamente pela estrela da conquista, Michel Platini. Mas o momento era de reconstrução para os Bleus: já havia novatos como Petit, Deschamps, Laurent Blanc e Angloma. O único jogador que dava esperança aos gauleses era o atacante Papin.
Do lado inglês, a situação era ainda mais dramática. Graham Taylor não conseguia peças satisfatórias para substituir os remanescentes do time que fizera bom papel na Copa da Itália. Se Stuart Pearce e Lineker - este, disputando as últimas partidas pela seleção - ainda diziam presente, também estavam lá gente que sumiria na poeira, como Daley, Palmer e Sinton. Se David Platt já tinha experiência, gente como Keown, Batty e, principalmente, Alan Shearer só explodiriam no futuro.
Voltemos às eliminatórias da Euro. A União Soviética conseguiu a vaga. Promessa de um time mais ameaçador para tentar melhorar o vice de 1988, certo? Errado, novamente.
Ninguém sabia que, ainda em 1991, a URSS se esfarinharia no anseio de independência das repúblicas que a formavam. Não que ela tenha perdido a vaga: chegou à Euro, mas já sob o nome de CEI (Comunidade dos Estados Independentes). Não seria moleza ter, no mesmo time, russos, ucranianos, tadjiques, bielorrussos, cazaques, uzbeques, armênios, quirguizes, turcomenes e - ufa! - moldávios.
Para piorar, a CEI teria, no grupo B, as duas favoritas ao título. Se é que era possível, a Holanda voltava com um time ainda mais forte que o de 1988 para tentar o bi. Ainda estavam lá Van Breukelen, Rijkaard, Koeman, Wouters, Gullit e, mesmo com o tornozelo perturbando-o, Van Basten, provavelmente o melhor do mundo à época. De quebra, o time de Rinus Michels ainda ganhava o reforço de dois jovens promissores: Frank de Boer e, principalmente, Dennis Bergkamp. E a Alemanha, unificada e campeã mundial, mantinha boa parte do time: Illgner, Brehme, Buchwald, Hässler, Matthäus, Klinsmann, Völler, todos aliados a novos valores, como Matthias Sammer e Stefan Effenberg. Completando o grupo, uma Escócia que saiu tão incógnita como entrou na Euro.
O grupo A foi mais truncado, com muitos empates e vitórias magras. Após empatarem com franceses (1 a 1), os suecos aproveitaram o fator casa e o bom time que já tinham para vencer dinamarqueses e ingleses e chegarem às semifinais.
Os daneses até perderam a chance de vencer o decadente English Team (0 a 0), mas trataram de obter a vitória necessária contra o time de Platini para acompanhar a Suécia nas semis. Ingleses e franceses caíam na crise que seria consumada com a ausência na Copa-94.
Já no grupo B, holandeses e alemães tiveram dificuldade contra a CEI, que arrancou dois honrosos empates (0 a 0 e 1 a 1, respectivamente). Mas a ex-URSS acabou fraquejando justamente contra os mais fáceis escoceses, que a golearam por 3 a 0. E justamente os britânicos serviram de desafogo - difícil - para a Laranja (1 a 0) e os germânicos (2 a 0) conseguirem a vaga nas semis. Na decisão do primeiro lugar do grupo, o objetivo alemão de revanche da semifinal de 1988 terminou na partida exuberante de Bergkamp, comandante holandês no 3 a 1 que lembrou as grandes performances holandesas quatro anos antes.
A primeira semifinal, no Rasunda de Estocolmo, não foi lá muito difícil para os alemães. Hässler e Riedle fizeram 2 a 0. Brolin ainda diminui, de pênalti, mas, a dois minutos do fim, Riedle, novamente, sacramentou a volta alemã a uma final de Euro. No esforço final, Kennet Andersson ainda diminuiu no minuto seguinte, mas já era tarde.
No segundo jogo, em Gotemburgo, a Holanda acabou naufragando no excesso de confiança que se seguiu à vitória contra os rivais alemães. Nem mesmo o gol de Henrik Larsen, logo aos 5 minutos de jogo, diminuiu a calma holandesa.
Bergkamp parecia comprovar a certeza do bi ao empatar, com 23 do 1º, mas o imparável Larsen, dez minutos depois, fez 2 a 1. Daí por diante, os daneses dominaram as ações, mas um único vacilo, a quatro minutos do fim do tempo normal, foi suficiente para Rijkaard empatar. Mesmo assim, o zagueiro nem comemorou muito, como se vencer a Dinamarca fosse apenas um passo em direção ao que seria o clímax: uma nova vitória contra os alemães. Assim, nem se fez muita questão de definir o jogo na prorrogação. Após oito anos, a decisão por pênaltis voltava à Euro. Na segunda cobrança da série, Van Basten, logo ele, cobrou rasteira, telegrafando para Schmeichel defendê-la sem esforço.
Ninguém erraria mais. Com o 5 a 4 final, a Dinamarca deixava de vez a condição de zebra, vencia o favorito ao título e ganhava uma injeção incalculável de moral para uma final que parecia inalcançável. Aos incrédulos holandeses, restava o 3º lugar e a despedida de uma geração brilhante.
Na final, também em Gotemburgo, a Alemanha começou arrasadora, mas parou na muralha Peter Schmeichel, que provou ali ser o melhor goleiro da Euro. Quieta, a Dinamarca, então, tratou de marcar, aos 18 minutos, com Jensen.
Passou a levar o jogo em banho-maria, sem sofrer muitos sustos. E, aos 33 do 2º, Kim Vilfort tornou a penetra, definitivamente, dona da festa. O antes utópico título europeu chegava, para espanto mundial.
Foi até surpreendente, mas não deixa de ser justo, tendo em vista a importância dinamarquesa conquistada naqueles oito anos desde a aparição na Euro-84.



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Birner, estou adorando a série da história da Eurocopa, muito bem escrita pelo seu convidado.
Só que preste mais atenção na hora de postar, está com problemas graves de formatação de texto, está enchendo o saco para ler, um horror!
Mais cuidado, amigão, seu blog merece mais cuidado.
E nós, leitores fiéis, também.
Comentário por Abesapien — 09/06/2008 @ 1:28
Na verdade, Felipe, a Alemanha bombardeou a Dinamarca no segundo tempo. Por muito pouco não conseguiu o empate. Com o gol do Vilfort, num chute de fora da área em que a bola bateu na trave antes de entrar, a reação germãnica esfriou de vez.
Comentário por Conrado — 09/06/2008 @ 1:42
Por favor, veja a configuração do texto. Está complicado de ler.
Valeu pela tema. Mais uma vez parabéns.
Saudações Cruzeirenses.
Comentário por Carlos José — 09/06/2008 @ 12:47
Felipe,
Ótimo texto! Não só esse como os demais, porém, ressalto esse porque é da minha época e acompanhei tudo bem de perto, lendo você relatar parece que foi ontem.
Victor, parabéns pela iniciativa de abrir espaço para esses tipos de textos. Gosto desses e os do Xico, além dos seus, óbvio!
SRN
Comentário por Orlani Júnior — 09/06/2008 @ 18:27
E esse leitor passou a simpatizar com a Dinamarca… rs… rsssssss
Comentário por Alan — 10/06/2008 @ 0:25
[...] http://blogdobirner.net/2008/06/09/a-historia-da-eurocopa-parte-vii/ [...]
Pingback por Blog do Birner » História da Eurocopa — 01/07/2008 @ 1:43