COI autoriza o véu islâmico

24 jun

Política

Le Monde

O Comitê Olímpico Internacional (COI) autorizou uma atleta iraniana a utilizar o véu islâmico (hidjab)  nos próximos jogos olímpicos de Pequim.

No entanto, os franceses não tiveram o direito de utilizar um badge (distintivo) com a seguinte mensagem: “Por um mundo melhor”, subtendendo-se, “por uma china melhor”.

“É como se houvesse dois pesos e duas medidas. É escandaloso”, afirma indignada Annie Sugier, presidente da Atlanta+, associação que milita a favor da promoção das mulheres nas Olimpíadas. “O ordenamento olímpico impõe a neutralidade. Ela não pode ser aplicada em relação ao badge francês e ser ignorada em relação ao véu” continua Annie Sugier.

De acordo com a regra 51, de fato, nenhum tipo de demonstração ou de propaganda política, religiosa ou racial é autorizado num espaço olímpico.

O fato de cobrir a cabeça pode ser uma forma de propaganda religiosa?

Não, afirmou o COI.

“Nós entendemos que as motivações da atleta iraniana não têm nada a ver com propaganda. A regra 51 não deve ser aplicada neste caso. Nós queremos antes de qualquer coisa que um atleta que obteve o índice possa participar da olimpíada” comentou Emmanuelle Moreau, porta voz do COI. O badge é outra história. Na verdade, nós não proibimos o seu uso, pois não houve nenhum pedido oficial. Nós simplesmente tomamos uma posição. Em seguida, o Comitê Nacional Francês decidiu não acatar o pedido de seus atletas. Definimos que tal reivindicação será examinada dentro de seu contexto, que é aquele das tensões entre a China e o Tibet, longe de ser neutra.

Os franceses não estabeleceram o uso do famigerado badge como condição de participar da Olimpíada.

Em contrapartida, a atleta iraniana, campeã de taekwondo, não irá aos jogos se não for permitido o uso do hidjab.

“Somos sempre criticados por depreciar as mulheres. Estamos nos empenhando para promover uma maior participação feminina para chegarmos a uma paridade. Em Pequim, nós contamos com uma participação feminina de 45,4%”, declara Emmanuelle Moreau.

Segundo o COI, vale mais uma mulher com véu do que uma mulher ausente.

Dentre as 205 delegações, nove terão exclusivamente de atletas masculinos, contra 35 em 1992.

Seis são muçulmanas (Brunei, Oman, Quatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Yémen), os outros três são nações minúsculas (Ilhas Virgens, Antilhas Holandesas e Liechtenstein).

De acordo com a organização Atlanta+, aceitar o hidjab para encorajar a igualdade entre os sexos não é aceitável. Anne Sugier aponta: “Não enviar as competidoras ou enviá-las cobertas com véu, é a mesma coisa! Uma mulher que vive no Irã não deixará de usar o véu em seu país por medo de forte represália, isso é evidente. Porém, estamos falando de Olimpíada! A verdadeira questão é: Cremos nos valores universais ou não? Lembro das atletas Nawal el-Motawakel e Hassiba Boulmerka que foram ameaçadas por terem corrido vestindo um short. Se o COI autoriza o véu, essas mulheres não terão mais escolha, elas sempre serão obrigadas a utilizá-lo.

Texto: Caroline Stevan

Tradução: Xico Malta

Escrito por Xico Malta às 5:50 Xico Malta 19 Comentários

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19 Comentários »

Salve, Xico.

Olha, particularmente, sou totalmente contra a proibição do uso do véu, assim como sou contra a proibição do uso de crucifixos, quipás (nao sei se escrevi direito!) e qualquer outro símbolo que a pessoa escolha para afirmar sua fé ou uma identidade que ela acredite ser iportante afirmar (como tatuagens, piercings, cabelos moicanos, rastafari e afins).

O país de cada um é, antes de tudo, seu corpo e a cada um de significá-lo como bem entender.

Não vejo problema algum em uma mulher lutar de véu envolvendo sua cabeça, assim como seria absurdo proibir o uso de uma corrente com um crucifixo, por um atleta.

E a questão do crachá francês, creio, é bem outra. Se uma delegação inteira decide participar dos jogos, criticando o seu hóspede, a coisa pode se tornar temerária. Além do mais, isso é mais uma enorme hipocrisia por parte dos franceses – normalmente, ótimos no discurso e medonhos na prática. Se quisessem mesmo um país melhor, deixariam de explorar a mão-de-obra chinesa, como os grandes grupos franceses fazem sem pudor algum (e as marcas de artigos de luxo que o digam!); deixariam de vender produtos chineses, retirariam, do solo chinês, s carrefours da vida e tals.

Ora, ora, colocar crachazinho e continuar enriquecendo em solo asiático, explorando mã-de-obra barata, ajudando a poluir e, de quebra, testando armas nucleares o Pacífico é muito fácil.

Pura hipocrisia, como foi, no meu modo de ver, aliás, a proibiçao do véu nas escolas francesas.

E, para finalizar, acho que não dá para condenar milhões de muçulmanos por conta de uma felizmente minoria integrista e radical.

Grande abraço,
d.

Comentário por deborah — 24/06/2008 @ 8:15

Cara Deborah,
Sobre o uso do hidjab, o argumento utilizado pela presidente da Atlanta + é de caráter feminista e não religioso. Para ela, o véu islâmico representa a opressão machista que exerce o mundo islâmico sobre a mulher. Tive uma experiência que corrobora com o esse pensamento. Quando morei em Londres conheci uma iraniana chamada Sadaff, ela estava passando um curto período de 3 semanas na Inglaterra para estudar inglês, pois bem, lá ela andava de jeans, camiseta, saía todas as noites, fumava (nem sabia tragar), enfim aproveitava a vida ao máximo. No seu último dia de viagem, no jantar de despedida com todos os colegas de classe, Sadaff, com lágrimas nos olhos, confessou: “Amanhã minha vida volta a ser o que sempre foi, terei que sair na rua coberta pelo meu hidjab, não poderei mais sair sozinha pelas ruas, volto pra minha prisão.
Ademais, não acho que foi pura hipocrisia a proibição do véu e qualquer símbolo religioso em lugares públicos (não foi só nas escolas). A França é um país laico, a lei de 1905 institui a separação da igreja e do estado, entendo que tal norma venha na verdade a proteger todos os cidadãos de todas as confissões religiosas, pois assim todos tornam-se iguais, sem nenhuma distinção caracterizada por emblemas religiosos. Quando vejo no nosso país, crucifixos pendurados em salas de tribunais, até mesmo no STF, fico imaginando uma pessoa de uma outra confissão religiosa ou até mesmo um agnóstico sendo julgada. Ou até mesmo julgamentos que entrariam em conflito com os dogmas da igreja, como foi o caso do julgamento da ADIN a respeito das pesquisas sobre células embrionárias. Bom acho que escrevi muita coisa, vou parar por aqui pois vai longe esse assunto.
Grande abraço!

Comentário por Xico Malta — 24/06/2008 @ 21:52

 
 

Imagina se uma destas mulheres de véu muçulmano levar uma surra de Taekendo, isto pode virar guerra religiosa, do tipo “as forças do mal estão agredindo nossas mulheres e desrespeitando o Corão”, e por aí vai …

Comentário por Raja — 24/06/2008 @ 9:20

Raja veneno de naja!

Comentário por Xico Malta — 24/06/2008 @ 21:55

 
 

Só uma anta para achar que o uso do véu é uma “propaganda religiosa” comparável ao badge francês.

- a equipe francesa sempre usa o badge onde quer que vá?
Não. É oportunista.
- as mulheres que seguem o islamismo à risca sempre usam o véu?
Sim. É o hábito.

É engraçado que a frança esteja tão preocupada com a “obrigatoriedade do véu”.
Será que eles deixam que os atletas usem cada um o seu material esportivo ou terão que usar o material com o qual a federação francesa fez contrato?

p.s. não sei se é erro da tradução ou da tal Annie Surgier, mas não é ‘dois pesos e duas medidas’, mas ‘um peso e duas medidas’. ‘Dois pesos e duas medidas’ estaria correto, sem nenhuma incoerência.

Comentário por Senhor Marchiori — 24/06/2008 @ 12:47

Obrigado Senhor Marchiori por mostrar o possível erro de tradução, fui dar uma olhada no texto original e consta realmente a expressão “dois pesos e duas medidas”, não tinha percebido tal incoerência , como pretendo me manter fiel ao texto original, deixo assim mesmo.
Forte abraço

Comentário por Xico Malta — 24/06/2008 @ 15:16

 
 

Parabéns ao COI. E ao Xico por mais esta matéria(tradução). To virando fã.

L.

Comentário por léo — 24/06/2008 @ 12:51

Obrigado Léo!
Grande abraço!

Comentário por Xico Malta — 24/06/2008 @ 19:42

 
 

Xico,

Sim, este tema vai longe e gostaria, se vc. me permitisse, de debater mais alguns pontos com vc.
mas te pedirei licença para fazê-lo na quinta-feira, já que cheguei há pouco, com a garganta arrebentada e amanhã dou aula até as dez na noite; preciso me recompor. Mas voltarei, sim.

Assim como ainda irei lá naquele teu post sobre a Alemanha – ainda não venci certas resistências pessoais em relação ao tema. ;o)

E saiba que é um imenso prazer trocar idéias com vc.

Grande Abraço,
d.

Comentário por deborah — 24/06/2008 @ 23:31

Cara Deborah,
Fique a vontade, também gosto muito de trocar idéias com vc. Não sabia que vc era professora, qual é a matéria que vc leciona?
Abraço

Comentário por Xico Malta — 25/06/2008 @ 14:52

 
 

Oi, Xico.

Olha, este tema é realmente muito complexo.

Primeiro, acho que existe, sim, toda a opressão pelos fundamentalistas, às mulheres, mas não seremos nós, ocidentais, judáico-cristãos a mudar esta situação. Posso até não concordar, não aceitar, mas não devem ser os nossos valores a definir uma possível mudança. Sou contra as cruzadas modernas. Fora isso, há as mulheres que crêem na religião e que usam os símbolos desta religião por convicção. E este é um direito delas. É como o comportamento afetivo e sexual mais submisso de algumas mulheres. Hoje, parece um crime uma mulher dizer que gosta de um homem dominador. Por quê? Temos mesmo de estar todas na mesma forma? E se tem que goste e que encontre quem complemente seu desejo, qual é mesmo o problema? Entende? Acredito que é preciso ter muito cuidado nestas generalizações de valores.

Ainda sobre a religião. Particularmente, não gosto de religiões, não me adapto a elas; não aceito interfêrencia alheia nas minhas decisões pessoais, mas, o que me chama muito a atenção é ver o mundo todo se voltando contra os hábitos opressores islâmicos (que o são, de fato, em muitos países, mas não em todos, diga-se), mas não contra os hábitos opressores do sistema de castas indiano ou das obrigações, teoricamente, tão absurdas quanto, do uso de perucas pelas mulheres judias ortodoxas ou da manutenção da vasta cabeleira disforme das evangélicas radicais. Ou da proibição do casamento entre-castas (entre os indianos) ou com goys (pelos judeus); ou, a meu ver, completamente absurdo, o não-reconhecimento de um filho de uma convertida como judeu legítimo; como um judeu de ’segunda classe’. Ora, se é para lutar contra a opressaõ, que se lute contra todas as opressões. Isso, sem falar da vergonhosa história católica que carrega em seu lombo a tortura e/ou assassinato de milhões de mulheres pela inquisição, sem falar no enclausuramento (em conventos ou hospícios), de outros tantos milhões…

No meu entender, a luta contra o islamismo, hoje, é de caráter político-econômico, e não religioso. Se fosse religioso, teríamos de nos voltar contra todas as religiões, pois todas, sem exceção, oprimem as mulheres.

Por isso, não acho certo proibir uma muçulmana de usar seu lenço para lutar. Só se isso a prejudicasse na prática do esporte. Aliás, ela pratica um esporte, e não exatamente um esporte feminino, e vai participar das olimpíadas. Será que alguém jaá foi lá perguntar a ela se ela se sente oprimida, de fato? E as indianas, participam das olimpíadas? Se sim, as de todas as castas?
(continua…)

Comentário por deborah — 26/06/2008 @ 21:16

 

(cont…)

Sobre a laicidade na França:

Pode mesmo um país que teve uma tradição católica tão forte e tão bélica ser realmente laico? Se o é de fato, por que temos CINCO feriados nacionais católicos no calendário francês (Pâques, Noël, Pentecôte, l’Ascension et l’Assomption) e nehum feriado judeu, budista ou muçulmano? Pode ser que não haja crucifixos nos tribunais franceses e, certamente, a influência da igreja lá, hoje, é bem menor, mas daí a dizer que são realmente laicos… sei, não.

E mesmo que eu seja por um Estado laico, Xico, entendo como laico o fato de os repesentantes do poder público não poderem confessar sua fé nem a deixarem interferir em assuntos da esfera pública, mas os cidadãos têm de ter o sagrado (sorry, não resito ao trocadilho! rs*) direito de ter cada um sua fé e de professá-la como bem entender, desde que isso, evidentemente, não conflite com o estado de direito (usei o termo certo?)

O que critico muito fortemente nos “Franceses A.O.C.” (termo usado por mim, em represália ao termo enormente racista cunhado pelo Estado francês, a saber: français d’origine étrangère) é a equação ingênua (na melhor das hipóteses) e racista (na pior…) segundo a qual integração = assimilação. Para o Estado francês, integrar-se à cultura francesa é abandonar a sua própria. Não aceito esta idéia de integração. Um país bem integrado, para mim, é aquele onde as diferenças podem conviver pacificamente, em toda sua abrangência: étnica, religiosa e cultural. E isso, sinto, os franceses, em geral, não sabem fazer, não. E digo isso de carteirinha, pois cansei de ser seguida em lojas e de sofrer preconceito explícito em solo francês, quando lá morei, só por ter traços mouros… O bagulho é denso!!! rs
Enfim, tudo realmente muito complexo.

Sim sou professora, Xico.
E de francês… Veja só!!! rs

Grande abraço e obrigada pela troca.

d.

Comentário por deborah — 26/06/2008 @ 21:36

UFA! Bom também vou precisar de um tempinho para responder. Desculpe a minha curiosidade, mas aonde vc leciona francês? Amanhã vem a minha tréplica :)

Comentário por Xico Malta — 26/06/2008 @ 22:27

 
 

Ôba, vai ter tréplica!! ;o))

Não tem porque se desculpar, Xico. Segredo algum.

Leciono francês na Aliança Francesa, especificamente, no que já foi chamado de Aliança Empresas (bancos, consulados, empresas etc) e junto à Aliança Universidades (especificamente, na FGV). Mas, eventualmente, dou cursos intensivos regulares nas unidades clássicas – como será o caso em julho. E, claro, também dou um bando de aulas particulares.

Abraço.
d.

Comentário por deborah — 27/06/2008 @ 7:57

Por acaso você conhece uma ex professora da Aliança chamada Gabi?

Comentário por Xico Malta — 27/06/2008 @ 13:27

 
 

Conheço, sim. Uma que saiu da Aliança recentemente? Que dava aulas na Vila Madalena e, depois, na Bela Cintra?

Comentário por deborah — 27/06/2008 @ 13:41

Ela mesmo. Ela dá aula particular pra minha esposa. Gente fina!

Comentário por Xico Malta — 27/06/2008 @ 16:28

 
 

Ela é EXCELENTE professora, Xico!!!
(esperei para dizer isso porque não sabia se falávamos da mesma pessoa ou não… rs*)

Tua esposa está em ótimas mãos!
Sem falar do astral da Gabi. Único.

Se puder, por favor, mande um beijo meu para ela.
;o)

d.

Comentário por deborah — 27/06/2008 @ 18:51

 

Deborah falta com honestidade intelectual ao acusar a igreja católica por milhões (sic) de mortes de mulheres na inquisição. Quer criticar, critique, mas não minta deslavadamente. Vc tem uma pretensõ intelectual que não respeita a ciência dos números e assim desmerece sua própria crítica. Aliás, pífia e pueril. A igreja queimou, calcinou, fritou e empanou mulheres e homens tios por hereges??? Sim. claro que é verdade. Mas daí até sua leitura e aos seus números há uma abissal fossa intransponível, especialmente pelo discurso barato… KKK…

Comentário por LesPaul — 22/08/2008 @ 21:12

 

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