Um jogador em campo minado

4 mar

Geral

De Xico Malta

Tradução do artigo publicado dia 02 de março 2009 no Le Monde, reportagem de Guillaume Perrier.

“Estou atravessando o momento mais difícil da minha carreira”, declarou Pini Balili ao Le Monde, esparramado em um sofá de veludo vermelho logo na saída do treino. Cabisbaixo, este homem de 29 anos, único jogador israelense que participa do campeonato turco, viveu momentos bem difíceis, desde o final de dezembro, quando teve início a guerra em Gaza.

Depois de ter invadido as telas das televisões e as ruas, o conflito e o ressentimento anti-israelense invadiram também os estádios.

O atacante do atual líder do campeonato turco, o Sivasspor, e também jogador da seleção de Israel demonstrou todo o seu mal estar por causa dos insultos e os slogans anti-israelenses nos estádios turcos. Notoriedade totalmente indesejada.

Os torcedores do Galatassaray foram os responsáveis pelo início de toda esta polêmica, no final de janeiro, durante as quartas de final da Copa da Turquia, contra o Sivasspor. Gritos como “Morte a Israel! Balili filho da….” surgiram das arquibancadas, depois de um gol marcado pelo craque israelense. Porém, no dia seguinte, os torcedores dos clubes rivais de Istambul e de Ankara defenderam o jogador, condenando veementemente o tom racista dos insultos. O Galatasaray foi condenado pela federação turca de futebol a pagar uma multa de 45.000 libras turcas (22.000 euros). Indignados, jornalistas se insurgiram contra a ninharia do valor da pena.

Já no final do jogo de volta, em Sivas, seu companheiro de equipe, o franco-turco Ibrahim Dagasan, nascido na Algeria, fincou uma bandeira palestina no meio do campo. “Um gesto simbólico de paz, durante toda a semana, vimos imagens de Gaza onde apareciam crianças mortas pelas bombas. É somente por elas que estou fazendo isso” justificou Ibrahim Dagasan. Porém, vendo a bandeira palestina no meio do gramado, os torcedores começaram a gritar: “Abaixo Israel” Viva Balili”. Aflito, Ibrahim pediu para que se calassem.

“Tampei meus ouvidos. Nunca quis ouvir falar desta guerra”, afirmou Pini Balili. Gostaria que a fraternidade e a paz saíssem vitoriosas, inch allah! O israelense recebeu o gesto simbólico da bandeira fincada no gramado como uma flechada no coração. “Não gostei da atitude, não entendi porque você fez isso”, desabafou o israelense ao seu companheiro de equipe. Mais calmo depois do fatídico episódio, Balili, declarou: “Depois discutimos o assunto no vestiário e não há mais nenhum problema, cada um é livre de pensar o que quer”.

No dia 14 de janeiro, o israelense foi forçado a publicar um comunicado no site de seu clube: “Grito como todo o mundo contra a guerra. Este derramamento de sangue tem que parar o mais rápido possível (…). Alguns me julgam culpado só porque sou israelense”.

Entre a calma e a angustia, Balili não consegue ficar indiferente. A cada noite, ele telefona a seus pais e a seus amigos em Rishon, Israel, para ter noticias. “Meus amigos dizem que eu devo tomar cuidado e me perguntam se o ambiente não está muito problemático”, sorri o jogador. “Mas eu amo a Turquia, amo os turcos e gostaria de ficar por aqui”.

Fora dos estádios, numerosas manifestações hostis a Israel e aos judeus continuam sendo organizadas na Turquia. Organizações islamitas, pro Hamas, fizeram um apelo ao boicote das empresas judaicas. A comunidade judaica da Turquia está preocupada com o surgimento de um anseio anti-semita no país e também com a confusão clássica entre judeu e israelense.

Em Sivas, cidade do fundo da Anatólia, coberta de neve durante um terço do ano, onde vive já há quatro anos, Balili transformou-se em uma celebridade local. Seus gols decisivos, principalmente contra as grandes equipes de Istambul, concretizaram a sua popularidade. “Pra mim é o numero um” revelou o taxista Erdem Demircan, com seu carro totalmente decorarado com as cores do Sivasspor. “Pouca importa se ele é mulçumano, armênio ou israelense, o que importa é que ele honra a camisa do Sivas” continuou o motorista. No guichê da bilheteria, um jovem torcedor de 20 anos disparou ingenuamente: “ele não é como os outros judeus”.

O craque está cansado de ser rotulado de israelense. Já, em 2007, houve diversos boatos em que um jogo do Sivasspor teria sido adiado por causa do Yon Kipur e que Balili não jogaria por causa do feriado judaico… Alguns meses mais tarde, o presidente turco Abdullah Gül convidou o craque para participar de um jantar para homenagear o presidente israelense Shimon Peres.

Depois de seis anos de Turquia, Balili quer se naturalizar turco para finalmente tornar-se anônimo. O processo deve se concluir daqui um mês. “Sinto-me bem aqui, falo turco… Só morando aqui para compreender bem este país”, constatou o craque. Nos jornais, Balili posou para uma foto com a bandeira da Turquia. Como quer a tradição, ele deverá ter um nome turco, Atakan, que significa literalmente: o sangue do pai.

Escrito por Xico Malta às 6:22 Xico Malta 25 Comentários

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25 Comentários »

Sou contra a guerra com armas e como o racismo.

Abraços,

Comentário por José R. Albuquerque — 04/03/2009 @ 8:28

Também!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 13:52

 
 

Excelente texto! Pena que sobre um assunto terrível. A confusão entre ser israelense e judeu é cruel. E os cidadãos de uma nação não podem sofrer pelas decisões do seu Estado, por mais que sejam decisões proferidas por seus representantes. Ainda mais quando a pessoa em si, não propaga o sentimento belicista do seu Estado.

Comentário por Jota Eme — 04/03/2009 @ 10:07

Perfeito Jota Eme!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 13:52

 
 

Ótima reportagem. Mostra o pensamento que fabrica as guerras. Um ódio enraizado difícil de explicar, que é passado de geração em geração.

Falta essa visão do esporte na imprensa brasileira.

Abraço

Comentário por Guilherme — 04/03/2009 @ 10:59

Abraço Guilherme!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 16:21

 
 

Que história de vida. Um israelense que joga em um país islâmico. É verdade que é a Turquia, que é o mais ocidental dentre os países de maioria muçulmana, não só pela localização geográfica (3% do território fica na Europa) como nas atitudes menos extremas com relação a alguns países de idioma árabe, até por conta de exigências mais recentes da União Européia, se a Turquia quiser entrar na área do Euro.
Naquela área, é difícil se separar questões políticas das esportivas. Pelo mesmo motivo, a três semanas atrás, a tenista israelense Shahar Peer teve o visto de entrada reprovado pelas autoridades dos Emirados Árabes Unidos e não pôde jogar o Torneio WTA Tour de Dubai. Em nível esportivo, isto pegou mal para os diretores da competição, que tiveram que pagar US$ 300 mil de multa, mesmo não tendo sido os responsáveis diretos pelo impedimento da jogadora. Por causa disso, na semana seguinte, o israelense Andy Ram acabou tendo o visto concedido para jogar o Torneio ATP da mesma cidade, onde ele participou da chave de duplas. Puro reflexo dos acontecimentos registrados sete dias antes.
Voltando ao futebol, é muito chato um jogador, que não tem nada a ver diretamente com essa história de guerra, ser ofendido por torcedores adversários, mesmo que para desestabilizá-lo durante a partida por ser do outro time. No caso do Pini Balili, ele alega que irá se naturalizar turco por amar a Turquia. De repente, é isso aí. Seis anos morando e trabalhando lá. Já os mais desavisados achariam que ele não quer mais que peguem no pé dele por ter nascido em Israel, um judeu. O interessante é que existem judeus na Turquia, como o Xico relatou. Enfim, que cada um tirem as suas conclusões. Um abraço a todos!

Comentário por Eddie Martínez — 04/03/2009 @ 12:57

Caro Eddie,
Não podemos esquecer também que o principal fator que explica a ocidentalização da Turquia foi a fundação da República Turca por Mustafa Kemal “Atatürk”. O primeiro presidente turco rompeu radicalmente com o passado decadente do império otomano e promoveu reformas importantes. Dentre elas, inspirado pela Revolução Francesa, “Atatürk” coloca na nova Constituição a laicidade do Estado turco, o direito de voto às mulheres, a substituição do alfabeto àrabe pelo alfabeto latino e asubstitução do calendário musulmano pelo gregoriano.
Abraço,
xico

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 16:43

 
 

Salut, Xico! Ça va?
Je suis très ravie de te revoir ici! ;o)

Quanto ao texto, triste, muito triste, esta que parece uma guerra eterna e toda esta intolerância – e de tantos; e dos dois lados.

Mas mais triste ainda é ver que a aceitação do outro, neste caso, tem de passar pela assimilação total, pela anulação se si mesmo e de suas origens. Isso eu acho medonho! Acho triste demais alguém desejar se tornar um anônimo, mesmo reconhecendo que a situação do moço não é nada fácil. Enfim…

Beijo, Xico.

Comentário por DeboraH — 04/03/2009 @ 14:30

 

Salve, Eddie.

Não podemos esquecer que os turcos, historicamente (e o Xico pode me corrigir se eu estiver errada) foram um dos povos mais belicosos que já se conheceu. E os armênios e os curdos que o digam…

Assim sendo, não dá para pensar que só porque eles são mais ocidentalizados e mais moderninhos eles sejam, também, mais ‘bonzinhos’ ou tolerantes.

Abraço.

Comentário por DeboraH — 04/03/2009 @ 14:36

Cara Deborah,

Qual país europeu e asiático não tem uma história belicosa? Atire a primeira pedra quem não tiver atrocidades em seu história! Vai me dizer que alguns países europeus não foram até mais belicosos que os próprios turcos? sei não….

Forte abraço!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 16:48

 
 

Por isso sou defensor do estado laico. Daí não se confundem nacionalidade com religião e evita essa perseguição mesquinha baseado em credo.

Cada um tem a liberdade de pensar no que desejar desde que não imponha isso aos outros, e isso não tem nada a ver com política estatal.

Comentário por P.H.Weberbauer — 04/03/2009 @ 14:44

Caro Weberbauer,
Concordo 100% com você sobre a laicidade. Dá uma olhada na minha resposta dada ao Eddie. A Turquia é uma república laica.
Abraço!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 16:51

 
 

Oi, Deborah! Realmente, vc tem razão. Vc citou os armênios por conta de um super-massacre turco contra eles logo após o final do Império Turco-Otomano, que durou uns 7, 8 séculos, creio eu, e que, além das terras árabes, chegou a dominar parte do leste europeu. Já os curdos infelizmente pagaram o pato por um gravíssimo erro da Grã-Bretanha, que era a metrópole daquela área. Na hora de deixar que aqueles povos seguissem seus destinos, os ingleses se esqueceram dos curdos. Resumindo, parte do Curdistão está com os turcos. Outra parte está no Iraque. Uma última está no Irã. Covardia pura.
Voltando ao futebol e ao jogador em questão, vc fez um belo resumo sobre ele e sua escolha. Renúncia sobre quem ele é, de suas origens, família, pátria. A pressão deveria estar muito grande para ele tomar uma decisão tão complicada. Ele não conseguiu forças para administrar isso.

Valeu, Deborah! Um beijo! Um abraço, Xico!

Eddie

Comentário por Eddie Martínez — 04/03/2009 @ 15:39

 

É verdade, Xico! E eu cheguei a ler um pouco sobre a história do Atatürk. Vc tem razão. Começou por ele, logo após a derrocada do Império Otomano.
Um abraço!

Comentário por Eddie Martínez — 04/03/2009 @ 18:13

Grande abraço Eddie!

Comentário por Xico Malta — 04/03/2009 @ 20:02

 
 

Interessante e triste post!
Triste de se pensar que está difícil chegar a paz áquela região.Que DEUS ilumine os dirigentes por lá!

Comentário por AUGUSTO CESAR — 04/03/2009 @ 21:52

Caro Augusto,
Depois do resultado das últimas eleições em Israel, acho que a paz no Oriente Médio ficou bem mais distante. Espero que a nova política norte americana consiga contra balancear o impulso colonialista do Likud!
Rezemos todos!
Abraço!

Comentário por Xico Malta — 05/03/2009 @ 11:52

 
 

Não defendo os europeus, Xico. As cruzadas, a inquisição e as conquistas coloniais mostram que nunca foram flor que se cheirasse. Só quis registrar que a Turquia não é tão tolerante quanto parece.

Abraço.

Comentário por DeboraH — 04/03/2009 @ 23:47

Entendi sua posição. Não fique brava comigo.
Abraço!

Comentário por Xico Malta — 05/03/2009 @ 11:54

 
 

Beijo, Eddie!

(d.)

Comentário por DeboraH — 04/03/2009 @ 23:47

 

Fazia tempo que eu não postava aqui. Lendo esse texto eu penso nos milhões de anônimos que sofrem com esse tipo de preconceito.

Comentário por Gabriel C. Santo — 05/03/2009 @ 2:22

Seja Bem-vindo de volta!
Abraço!

Comentário por Xico Malta — 05/03/2009 @ 11:48

 
 

rs*
Brava com vc?
Nunca, Xico.

Sorry se me expressei mal!

abs.
(d.)

Comentário por DeboraH — 05/03/2009 @ 12:28

rs

Comentário por Xico Malta — 05/03/2009 @ 13:08

 
 

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