Na África do Sul, o futebol pertence aos negros

25 jun

Geral

De Xico Malta

A cada vez que o único jogador branco da seleção sul africana toca na bola, os torcedores dos Bafana Bafana* não o vaiam. Muito pelo contrário, eles encorajam Mathew Booth gritando seu nome – “Boooooth!”.

Num país onde o apartheid discriminava os negros, ninguém mais hoje em dia quer ouvir falar de cor da pele.

Eu sou como os outros jogadores, eu sou sul africano”, insistiu o zagueiro de quase dois metros de altura.

Ele e o goleiro reserva formam a dupla branca do grupo dos 23 jogadores que atualmente representam o anfitrião na Copa das Confederações.

Por de trás disso tudo, esconde-se uma tendência.

Em vinte anos, a porcentagem de brancos praticantes do futebol passou de 25% para menos de 5%.

Uma degringolada por conta da perda de interesse desse esporte junto à comunidade branca.

No inicio dos anos 1990, o futebol se profissionalizou.

Advogados, executivos e funcionários públicos brancos que trocavam depois do expediente a gravata por uma camisa de futebol tiveram que escolher.

A maioria obviamente não optou pelo futebol depois de ter comparado seus altos salários com o salário médio de um jogador profissional de “apenas” 3.000 euros por mês.

Com a segregação, ao contrario dos brancos, milhares de adolescentes negros viram no futebol uma oportunidade para sair de suas townships (favelas).

A concorrência para chegar ao topo foi mais dura para os brancos que antes, quando jogavam somente entre eles, os brancos sempre foram menos fanáticos pelo futebol” explicou Raymond Hack, diretor geral da federação sul africana (SAFA).

A organização que cuida dos esportes amadores também foi colocada em dúvida.

É muito mal gerida, comentou George Dearnaley, ex atacante branco da seleção sul africana. Nos domingos não há, muitas vezes, nem linha que delimita o campo e nem respeito aos horários marcados para o inicio das partidas. É muito triste, haja vista que do outro lado da rua, pode-se observar jogos de rugby e de cricket em campos muito bem equipados. Para os brancos, o futebol continua sendo um esporte de menor importância se comparado com o rugby e cricket, esportes estes que fazem parte de sua identidade cultural”, constatou Ted Dumitru, treinador do time Mamelodi Sundowns de Pretoria.

Se, todavia, meninos continuam insistindo em jogar futebol, há uma solução. “Pais nos procuram para que seus filhos sejam treinados no sistema europeu, para desse modo ir um dia jogar na Inglaterra”.

Para Eric Tinkler, ex craque branco dos bafana bafana, hoje em dia responsável pelo centro de formação de atletas em Johannesburg, as crianças brancas em sua grande maioria praticam o futebol nas escolas, porém quando crescem preferem o cricket ou o rugby, lamenta.

O atual desenvolvimento das escolinhas de futebol poderá favorecer uma maior adesão ao esporte por parte dos adolescentes brancos.

Bafana Bafana: Apelido da seleção sul africana

Tradução da reportagem do Le Monde de Sébastien Hervieu.

Escrito por Xico Malta às 1:23 Xico Malta 7 Comentários

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7 Comentários »

Grande Birner,

Interessante fotografia socio-econômica do esporte futebol na África do Sul.

Se o futebol passar a ser interessante economicamente, também, para os “brancos” (não gosto de escrever deste modo…sinto-me desconfortável) o interesse pelo futebol crescerá proporcionalemente.

Abraços,

Comentário por José R. Albuquerque — 25/06/2009 @ 8:01

 

dEscriminava: não amigo… DISCRIMINAVA, DISCRIMINAÇÃO!
conserta, vai?

Comentário por ang — 25/06/2009 @ 10:32

Caro Ang,
obrigado amigo pelo puxão de orelha, não tinha visto o erro grosseiro.
Abaço!

Comentário por Xico Malta — 25/06/2009 @ 11:50

 
 

Muito legal…
Difícil imaginar coisas como o apartheid num passado tao recente e com alcance até os dias atuais. Será vencido, mas nao esquecido. Seja através do esporte, ou qualquer outra coisa.

Comentário por MIRANDA, "Tri-campeão da humanidade"!! — 25/06/2009 @ 13:03

 

Texto muito interessante.Legal ver o racismo sendo derrotado!

Comentário por AUGUSTO CESAR — 25/06/2009 @ 14:52

 

Hum…

Engraçado, não tive a mesma percepção de alguns colegas.
Para mim, parece que o apartheid (social/”racial”) se perpetua, justamente, no futebol…

Será que li mal as entrelinhas?

Abraços alvinegros, Xico!
d.

Comentário por DeboraH — 25/06/2009 @ 16:00

 

Belo post, parabéns Xico Malta, um tema bem interessante, mas é uma pena que a Africa ainda tenha tantos problemas, no dia que os brancos, também não gosto de dizer desta maneira, se interessarem mais pelo futebol – o futebol por lá pode crescer muito mais -, mas só de o racismo ter diminuido bastante por lá, já é um avanço.
Abraço.

Comentário por Rener — 26/06/2009 @ 9:27

 

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