De Vitor Birner
Reproduzo neste post a minha coluna publicada na edição de sábado do Lance.
Péssima relação
O maior indício de que o casamento está perto do fim são as reações indiferentes dos envolvidos.
Gestos de carinho, preocupações com a esposa e o marido, assim como as discussões, discordâncias, birras e brigas entre eles mostram que a relação, bem ou mal, ainda existe.
O longo namoro do população brasileira com a seleção passa por séria crise. É fácil achar alguém que foi apaixonado pela camisa verde e amarela e hoje não mostra o menor interesse.
A destruição do amor provocou outros estragos. Quem gosta do Brasil, o faz de maneira fria.
Basta ver as reações dos torcedores na fraca apresentação contra os sul-africanos.
O público paulistano costuma vaiar a equipe nacional. Sem novidades.
A diferença, ontem (sexta-feira), foi a intensidade dos apupos. Noutros tempos, seriam mais fortes.
Os que desembolsaram entre R$80 e R$300 reclamaram bastante, porém não demostraram tanta irritação.
Duvido que alguém perdeu o humor ou explodiu de nervoso por conta do fraco desempenho dos comandados de Mano Menezes.
Diversas vezes as vaias terminaram em trocas de olhares e de sorrisos com quem estava sentado ao lado e fazia o mesmo.
Lembraram aquelas festas de música da moda, com suas dancinha sazonais e padronizadas. A comemoração do gol também foi branda.
Faltam espontaneidade e sentimento verdadeiro nesse relacionamento.
Só os ingênuos conseguem manter a paixão. Serão os próximos a abandoná-la caso as coisas continuem iguais.
José Maria Marin fala em reaproximar os brasileiros do selecionado. A boa intenção para no verbo.
Não obterá sucesso abrindo os treinos antes dos confrontos e tirando dos clubes no Brasileirão seus principais atletas.
A CBF transformou a equipe pentacampeã do mundo em inimiga de quem ama os times.
Esses, sem dúvida, ainda possuem milhões de leais seguidores.
O sucessor de Ricardo Teixeira necessita mexer no calendário. A seleção não pode competir com os clubes, tal qual faz hoje.
Essa é a primeira e mais urgente medida a ser tomada.
Sem isso, a situação só vai piorar.
Não creio
A CBF é uma instituição privada. Seus administradores sempre ressaltaram isso.
A seleção brasileira é, de longe, a maior fonte de renda da entidade.
Ninguém precisa ser muito inteligente para entender por qual motivo Ricardo Teixeira não se importava com os clubes e privilegiava o seu principal produto.
Você acredita na possibilidade de José Maria Marín ter a grandeza de abrir mão de datas, atletas, incomodar federações estaduais, reestruturar o nosso futebol e lucrar menos do que pode?



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Percebemos
Na boa, gente: o que sinto pela Seleção não chega a 10% que sinto pelo meu time. Prefiro que o meu time ganhe um título importante que a Seleção seja campeã.
Ingênuo é você, Biner, achando que mudar o calendário para não atrapalhar os clubes é o grande fator para o distanciamento entre a seleção e torcedores.
Antes de tudo, faltam resultados. Perdeu as copas de 2006, 2010 e as olimpíadas. As vitórias contra Gabão, Egito, China e cia. enganam quem? Se mostrasse um bom futebol pelo menos. Enfim, a seleção não empolga.
Segundo, falta identidade entre os torcedores e os jogadores. Vejam o jogador símbolo da equipe atual: Neymar. Além dos santistas e garotas fanáticas, vejo poucos dizendo que ele tem carisma. Não discuto a qualidade técnica.
Qual jogador atual tem o mesmo carisma que tinha Ronaldo, com seu jeito boa praça? Ou até mesmo Romário, com a sua marra?
Finalmente, espero que esse distanciamento esteja relacionado ao amadurecimento do povo brasileiro, ao não engolir que uma equipe de milionários que (na maior parte) moram no exterior, selecionada por uma empresa privada, tenha alguma coisa relacionada com o orgulho patriótico.
Não consigo entender como a CBF consegue ser tão incapaz na gestão do nosso calendário, incapaz de raciocinar o mal que isso causa aos times, à seleção, ao futebol como um todo. Eu sou santista e me esforço para torcer pela seleção sempre. Esforço-me porque discuto com outros, me inflamo, quero vitoria, xingo e tudo mais. Às vezes até assisto na Globo, que narra como se estivéssemos no buraco da Alice. Mas está cada vez mais difícil. O prejuízo ao meu time se coração é imensurável. Sempre me recusei a responder a questão hipotética: torce mais para o Brasil ou para o Santos? Sempre disse que torcia para os dois e que um nunca enfrentaria o outro. Mas hoje isso é falso. Sou um exemplo do seu texto, Birner. E a solução parece ser tão simples. Alguém dos bons já investigou quem lucra com essa desorganização e como se dá esse lucro (não acredito que seja somente por causa da novela, não pode ser…). Parece o lucro da seca, da miseria, da fome (mesmo com a história recente provar que um mínimo de distribuição de renda melhora até para os banqueiros). Será isso apenas burrice? (minha?).
Birner, o buraco é mais embaixo: infelizmente, desde a Copa de 2002 a Seleção virou exclusividade de um pequeno grupo interessado em tirar proveito para benefício próprio da imagem que uma seleção pentacampeã conquistou a duras penas. Está tudo errado!
Jogadores bizarros, sem nenhum destaque internacional foram convocados e até chegaram a figurar entre os 11 titulares (Jucilei, Jadson, Fernandinho, o ex-Corinthiano Willian, Rômulo) e, de repente, caíram no esquecimento – eu sei que é coincidência, mas o esquecimento é geralmente precedido de uma transferência para um outro clube por valores interessantes para a qualidade desses jogadores.
O lobby dos hotéis onde a Seleção geralmente se hospeda deveria ser desinfectado para passar o fedor que essa espécie de ratos chamados “empresários” deixa no local. Aliás, você sabe por que isso não é noticiado? Pode ser por que o acesso à essas áreas dos hotéis é restrito?
Enfim, criou-se uma situação onde não existe mais o mérito de vestir uma camisa amarela repleta de glórias e de ídolos. A cobrança não está mais no resultado que o jogador pode trazer para a Seleção (títulos, glórias, conquistas, …), mas no resultado que ele trará para esse pequeno grupo.
Deixei de torcer pela Seleção depois da Copa de 2006 porque foi ali que vi que os interesses pessoais estavam acima do interesse coletivo: para os jogadores era importante atingir marcas pessoais (maior artilheiro das Copas, maior número de jogos com a camisa amarela em Copas) do que buscar o hexa. E tudo isso aconteceu porque a preparação para a Copa foi feita em ritmo de colônia de férias (pagode, mulheres, treinos com torcida, belo hotel na Suíça, …), sem compromisso com o coletivo.
Quando vejo algum jogador do meu time vestindo a camisa amaerla, torço para que ele não jogue nada, para nunca mais ser convocado – assim, ele não desfalcará mais o meu time do coração, esse sim a minha verdadeira paixão!
É uma pena a seleção estar nesse patamar. Para mim, que vivo no exterior, uma das poucas referências boas era a seleção. Em 94, todos sabiam quem era o Romário, Bebeto, Aldair, Dunga, Jorginho, Leonardo, Mauro Silva, Branco, Taffarel, etc. Em 98, o pessoal ficou conhecendo o Cesar Sampaio, Ronaldinho, etc. Em 2022 foram Roberto Carlos, Cafú, Rivaldo, os Ronaldos, entre outros.
Hoje, ninguém sabe quem é quem. Nem eu.