17 jul

A doutrina dos sócios-torcedores

Birnadas

De Vitor Birner

Tenho restrições e elogios ao radical anseio dos cartolas por sócios-torcedores.

Se o time conta com seguidores leais, sistema funcional de negociação de ingressos e preços acessíveis, terá, de qualquer forma, estádio pleno.

O principal ponto favorável desses programas de adesão é o planejamento financeiro. A margem de erro entre o que os cartolas imaginaram arrecadar e o que de fato conseguem, diminui.

O negativo é que gera outra segregação.

Os excluídos

Pessoas novas, por exemplo, que ainda não têm renda própria e tendem a se apegar ao manto sagrado, enfrentam mais empecilhos para alimentar o amor, por causa dos programas de sócio-torcedor.

Quem labuta nos horários dos jogos a os que moram longe da cidade da agremiação, ambos muito apaixonados pelo time, que sempre tentam ir ao estádio ou à arena nas folgas, mas talvez não possam pagar os valores mensais mais elevados – para especificar eu teria que citar todos planos oferecidos pelos clubes  - precisam se conformar com a impossibilidade de adquirirem as entradas.

Na pele

Há um enorme abismo entre a relação com o time à distância e de perto.

Quem ama, em regra, quer sentir a energia de ‘um estádio’ empurrando ou secando, e fica, junto da agremiação seja qual for a fase dela.

Joga junto com seus ‘representantes’ em campo.

No coração

O placar de cada partida mexe com seu humor, mas não o faz deixar de acompanhar o time.

Futebol é, acima de tudo, lidar com perdas, pois nenhuma agremiação no planeta ganhou a maioria dos torneios que participou.

E quanto maior for a quantidade de fracassos, mais intensa será a alegria nas conquistas dos títulos.

Na alma

A segregação dos planos de sócio-torcedor fere a essência desse esporte.

Aproxima mais o futebol da condição de produto acima de tudo.

O distancia da simplicidade que o fez, outrora, o local democrático (no sentido agregador, não no destrutivo como o que muito escuto, da palavra), onde pobres e ricos, pessoas de raças, etnias e religiões distintas,  com pensamentos antagônicos, largavam os preconceitos e intrigas, e se uniam espontaneamente em apoio à camisa que escolheram até que a morte, talvez, os separe dela.

Subvertendo a cultura da tristeza

Nem tudo deve proporcionar o maior lucro material possível.

Dinheiro serve para gerar o conforto que aumenta a possibilidade de o indivíduo ter mais momentos de felicidade.

Quando essa alegria é trocada por grana, temos uma inversão de valores e consequentemente as séries constantes de punhaladas na alma do esporte que ficou gigante porque emocionava e não por por ter como primeiro objetivo o faturamento.

Hoje em dia, há mais nais números e menos sensações plenas no mundo do futebol.

No bolso

Não tenho nada contra o dinheiro no futebol.

Acho importante.

Gera empregos.

Se fosse completamente amador, muitas pessoas que nasceram com talento para jogar bola precisariam ter seus empregos e não se dedicariam a ele, que, se tiver a alma intacta, distribui intensas emoções para milhões.

A grana no futebol deve ser a meta secundária daquilo que os burocratas e políticos interessados chamam de produto, para o esporte não perder valor emocional – tem acontecido principalmente aqui no Brasil –  e, mais para frente, comercial.

Como a natureza

O futebol não é a única atividade onde se faz exploração predatória.

De vez em quando o observo como vasta e importante floresta, de onde se retira de maneira gananciosa a maior quantidade de recursos naturais em detrimento do ecossistema perfeito e fundamental, até o dia em que nada mais nascerá lá.

Os programas de sócios-torcedores talvez sejam parte de métodos similares no futebol.

Mais números, menos emoções

Alguém tem qualquer tipo de dúvida que o futebol já proporcionou mais sensações aos torcedores do que nesse neo-futebol?

Cadê a expectativa antes dos jogos?

Cadê a magia que nunca dependeu da qualidade em campo para existir?

Será que não percebem que a doutrina do faturamento como prioridade é vendida ao público e aos  atletas profissionais que, por isso, até quando os jogadores se apegam a uma agremiação não conseguem ter a reverência, tirante exceções, por ela como incontáveis jogadores de outrora  mostraram?

Que grande parte das declarações nessa direção não passam de média?

Questionamento 

Eu não tenho como afirmar, hoje, se a doutrina dos sócios-torcedores terá, em ,ongo prazo, mais efeitos positivos ou negativos.

É difícil dimensionar, agora, o real impacto que terão, após décadas, na formação dos torcedores e na intensidade da ligação de centenas de milhões de seres humanos com os times.

Atalho e obstáculo

Se vende a ideia de que facilitam para os torcedores, mas isso é real apenas para uma parte dele.

A outra terá uma barreira a mais entre si e o ingresso.

Carnê

Os clubes podem negociar pacotes com ingressos para todos os jogos.

E quem adquire, ganha facilidades como redução no valor das entradas, parcelamento ou e alguns outros benefício ofertado para sócios-torcedores.

Fast-futebol gourmet

A única percepção nítida é a de que a gestão do futebol em muitos países tem ficado cada vez mais longe de torcedores  e mais perto dos consumidores.

O padrão-Fifa, uma espécie de rede de fast-foot que robotiza e plastifica a alma do jogo com chatas padrões que parecem uma caricatura ‘gourmetizada’ do futebol, são parte dessa maneira ultra-comercial que faz ‘torcedor’ comemorar faturamento quando o time não ganhou título.

E como acontece noutros setores, alguns mais importantes que o próprio futebol, pouco se questiona o rumo dessas gestões, porque tendem a aumentar os lucros.

Horário que mostra

O sucesso de público nos jogos das 11h de domingo mostra que muitas pessoas colocaram o esporte em segundo plano, assim como os dirigentes fizeram com a alma do futebol.

Nesse horário, almoço familiar, cinema, shopping center, parque, a namorada (o),caminhadas, museu, teatro, bicicleta, praia … podem aguardar.

Nem sempre foi assim.

As tardes de domingo eram do futebol.

Hoje talvez sejam (são necessários mais jogos para afirmar) as manhãs.

Não sei se, quando o mundo capitalista brasileiro oferecer concorrência mais cedo no dia de folga da maioria, o esporte perderá de novo o jogo e talvez a última brecha na agenda do grande público da nação onde Pelé, Zito, Garrincha, Didi, Rivellino… construíram a mais rica história de um país no futebol.

 

100 respostas a A doutrina dos sócios-torcedores

  1. vicente alves disse:

    Saudações. Quanto custa formar uma paixão ? A oportunidade de construção de novos ou reformados estádios poderão atender a demanda de entretenimento familiar em espetáculos do futebol. Quem não foi influenciado por pais, tios , primos , amigos na escolha do seu clube do coração ? É muito mais fácil (e barato) conquistar novos torcedores na tenra idade , se acompanhado de familiares, parentes ou amigos em boas acomodações de novos ou reformados estádios de futebol. O entretenimento dos baixinhos (como diz a Xuxa) será fundamental nos futuros espetáculos , em shows de intervalos ou ambiente específico dentro dos próprios estádios. Ah, se os baixinhos consomem ? Perguntem a Xuxa …

  2. vicente alves disse:

    Saudações. O mosaico das ligas esportivas. A fidelização de streaming de entretenimento esportivo, fundamentalmente também composto pela imprensa esportiva, além dos próprios eventos, estará estreitamente ligada às operações de créditos que se adaptarão a nova “media” (equipamento) smartfone, o sucessor do secular rádio ,da (quase secular) televisão, e do cartão de crédito. As possibilidades interativas, inclusive quanto a compra de qualquer produto ou serviço, independerao de fidelidade a clubes, mas de fidelidade a eventos . As futuras ligas esportivas, com a fundamental ajuda da imprensa , habilitando plataformas específicas, poderão fidelizar não apenas sócio-torcedores (vinculados à clubes) , mas sócio-eventos-conteudos.

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